Entrevista a João Oliveira
  • 07.04.2025
  • PCP
  • GUE-NGL
  • 10º Legislatura

07.04.2025

10º Legislatura

GUE-NGL

PCP

João Oliveira

O “mestre dos apartes” na Assembleia da República, mantém o seu registo no Parlamento Europeu, onde já chegou a citar “Monty Python”. Apesar do ambiente formal de Bruxelas e Estrasburgo, acredita no humor como ferramenta de comunicação política.
Tem um gosto especial por migas, moscatel, gatos, e na dificuldade de escolher entre Ary dos Santos e José Maria Branco; escolhe Ary Dos Santos cantado por José Mário Branco.

A política europeia com proximidade

Sobre algo que mudaria no Parlamento indicou o formato das sessões plenárias, onde
“despejam-se discursos de um minuto, sem debate”. Para contornar isso, usa frequentemente os mecanismos de pedido de esclarecimento (os chamados blue cards) para tentar promover um confronto político mais direto.
Com apenas 21 eurodeputados portugueses entre 720, há uma tendência natural para maior contacto entre os representantes nacionais. Mas este acredita que o essencial é não perder o contacto com a realidade nacional e com quem representa: “Quem deixar que a sua energia seja sugada pelo Parlamento Europeu, apenas fechado nestas quatro paredes, desligar-se-á do mundo.”

Crescer com a política

A política entrou-lhe em casa cedo, pela mão dos pais e do avô materno, mas foi ainda na escola secundária que deu os primeiros passos concretos na militância, ao integrar a associação de estudantes e filiar-se na Juventude Comunista Portuguesa (JCP) aos 15 anos.
Já em Coimbra, manteve-se ligado à JCP e à vida académica. Foi um período que considera determinante para a confirmação dos seus valores e para aprofundar a sua visão ideológica. Vê o percurso político como uma evolução contínua: “Um percurso de aprendizagem e de construção de nós próprios como comunistas, que eu julgo ser um percurso que nunca acaba”, afirma.

Entre 2007 e 2022, foi deputado na Assembleia da República. Destaca três momentos particularmente marcantes: o combate à maioria absoluta de José Sócrates, os anos da Troika — onde procurou dar voz à indignação de quem via a sua vida arruinada — e o período entre 2015 e 2019, com uma intervenção mais relevante no rumo da governação.

Atualmente, com a quebra no número de deputados da CDU, reconhece a influência do chamado “voto útil” e das novas dinâmicas políticas muito influenciadas pelos novos meios de comunicação. Ainda assim, mantém a confiança no crescimento do projeto político da CDU, ancorado na ligação ao país real.

No Parlamento Europeu: uma voz solitária, mas firme

Hoje, é o único eurodeputado eleito pelo PCP, o que acarreta uma responsabilidade acrescida. É membro de duas comissões: Orçamentos; Emprego e dos Assuntos Sociais, e como suplente noutras duas. A carga de trabalho é intensa, mas sente que o seu papel dá expressão a um coletivo — tanto em Bruxelas como em Portugal.

Um olhar sobre a Europa

João Oliveira é abertamente crítico do eurocentrismo institucional e dos mecanismos pouco escrutinados da União. Considera que os parlamentos nacionais deviam ter mais margem para contrariar decisões vindas de Bruxelas.

Afasta qualquer comparação com os discursos da extrema-direita, afirmando que são dois projetos absolutamente antagónicos. O eurodeputado diz que a sua bancada defende um conceito de soberania que corresponde às vontades e interesses do povo. E do outro lado do hemiciclo, escondem-se atrás de conceitos que não lhes pertencem para servir os interesses do capital e não dos trabalhadores e do povo. 

Paz, segurança e direito internacional

Sobre a guerra na Ucrânia, João Oliveira apela a uma solução baseada nos princípios da Ata Final da Conferência de Helsínquia — como o respeito pela soberania, pela integridade territorial e pela resolução pacífica dos conflitos. Vê o expansionismo da NATO como um fator de escalada e acredita na importância do desarmamento global e controlado, a começar pelo nuclear.

Participou recentemente numa iniciativa do Grupo de Haia, que pretende intervir junto de tribunais internacionais pela aplicação do direito internacional, colocando “o respeito pela ordem internacional na ordem do dia”, sublinha, contrapondo-o a uma ordem baseada em regras ditadas por quem tem mais poder.

Entre sonhos e lutas

João Oliveira acredita numa realidade construída a partir do sonho. Diz que o euro “ já não nos serve” e “ao escudo a gente já não volta”, deixando em aberto a necessidade de pensar uma nova alternativa. Mantém-se fiel às suas raízes culturais e políticas, vê a cultura como uma ferramenta de emancipação e não abdica de um pensamento crítico sobre o país, a Europa e o mundo.

Artigo escrito por Mariana Santos Galo, colaboradora do projeto Os 230.

Nome Completo

João Guilherme Ramos Rosa de Oliveira


Data de Nascimento

09/07/1979


Habilitações Literárias

  • Licenciatura em Direito


Comissões Parlamentares

  • Comissão dos Orçamentos
  • Comissão do Emprego e dos Assuntos Sociais
  • Comissão da Indústria da Investigação e da Energia [Suplente]
  • Comissão das Liberdades Cívicas da Justiça e dos Assuntos Internos [Suplente]